23 Dec

     Luiz Carlos dos Santos Gonçalves

     Dois homens jovens trocam impressões entre si e observam um terceiro, um pouco mais afastado, improvisar ao piano. Em certo momento, o pianista encontra uma sequência melódica, que explora fazendo variações. Depois, cantarola uma frase sobre uma estrada longa e sinuosa. Ao retornar ao piano, já com muitas pessoas no ambiente, descobre outra melodia, de beleza tão intensa que consegue se sobrepor ao vozerio. 

     Os dois homens se chamam George e Ringo. O outro - que procura disfarçar a juventude com uma barba espessa - se chama Paul. A primeira música, ainda em construção, se tornará The long and winding road. A segunda, Let it be

   Pouco depois, agora tocando com firmeza contrabaixo, guitarra e bateria, vemos Paul, George e Ringo definindo uma batida, que aos poucos vai se transformando em Get back. É o título que se deu a este formidável documentário dirigido pelo Peter Jackson, o mesmo que fez “O Senhor dos Anéis” [1]. Nele assisti, assombrado, ao surgimento e construção de algumas das músicas mais lindas de uma época. É como se eu visse Borges escrevendo o Aleph ou J.D. Salinger rascunhando Para Esmé, com amor e sordidez

     Além das canções já mencionadas, estão ali Across the universe, I’ve got a feeling e I me mine, que George diz ter feito em sua casa “na noite de ontem”. 

   Sim, estamos falando dos Beatles. 

   O documentário mostra como, num prazo de duas semanas, eles criaram este disco marcante – Let it be – e ainda prepararam parte do material para Abbey Road, o seguinte e último.

     Duas semanas! 

     Os três episódios condensam mais de sessenta horas de gravação, mostrando como a banda criava e como seu método já ia sufocando o talento de George Harrison, espremido entre os gênios estelares John – que se mostra bastante apático – e Paul. 

   Foi quando os Beatles já findavam, que George escreveu algumas das suas canções mais famosas: Something e Here Comes de Sun. Após a separação, ele nos legou My Sweet Lord e Give me Love

     Paul McCartney se revela a força criativa do grupo, parecendo “captar no ar” melodias de beleza insuperável,  expondo aos demais rapazes o modo como deveriam ser tocadas. Era o líder, aquele que com sua assertividade e persistência permitiu que o trabalho fosse feito, ao custo de exacerbar as tensões que levaram ao fim da banda. 

     Aliás, ao ver o programa deixamos de lado uma tonelada de conversas fiadas, segundo as quais foi Yoko Ono, namorada do John, quem precipitou o fim do grupo. 

    Não foi não. 

    De quebra, ainda dá para ouvir os Beatles tocando músicas de outros autores, entre eles Chuck Berry – Jonny B. Good - e Bob Dylan - Quinn The Eskimo, I Shall Be Released e Mama, You Been On My Mind. Paul McCartney introduz uma de suas criações mais bonitas – Another Day – que vai estrear no seu primeiro disco após a separação. 

     Mas...

     O que tem a ver os Beatles e, notadamente, Paul McCartney e George Harrison com o Direito Eleitoral e a Cachaça Eleitoral? 

     Nada, certamente. 

    Ou, pensando melhor, alguma coisa. 

   A explosão de criatividade e sensibilidade apresentada no documentário é suficiente para convencer os mais céticos de que as pessoas humanas possuem habilidades transformadoras, capazes, sob uma liderança inspiradora, de realizar prodígios. E mostra também que liderar gera custos e arestas, que no momento certo, podem levar a uma busca corajosa por caminhos autônomos. 

     Isto é política, claro. 

   No ano que vem, teremos ensejo de escolher nossas lideranças e mensurar quais são aquelas que, criativas e hábeis, podem colaborar para o avanço da nossa sofrida e resiliente sociedade. E quais serão as previsíveis arestas de cada escolha. Também na política, os valores da criatividade, empatia, trabalho conjunto, persistência e independência podem ser decisivos. 

      Agora volto à música[2]: aprendi na vida que as pessoas têm sensibilidades, preferências, histórias e momentos nunca perfeitamente transmissíveis, por mais que tentemos. Estes elementos, ao lado do acesso à informação e à cultura, presidem a formação de seus gostos musicais[3]. Mas, quem sabe, você não dá uma chance a estes moços de Liverpool?      

         Feliz Natal e Próspero ano novo, a todos e todas. 


[1] Get Back, disponível na Disneyplus. A imagem utilizada neste texto é de divulgação do documentário.

[2] Ou não.

[3] E políticos!

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